CAPÍTULO 20 — O PRIMEIRO GRANDE CICLO DO CASAMENTO

Quando o primeiro ano deixou de ser apenas começo e se tornou fundamento

Um casamento que começou no deserto

O casamento de Ivanildo Melo Regis e Rosinete Lima Regis começou em 28 de março de 2003. Mas o primeiro grande ciclo dessa aliança não foi marcado por abundância, facilidades ou portas abertas. Foi marcado por um deserto.

Rosinete descreve aquele primeiro ano como um período em que eles queriam trabalhar, procuravam oportunidades, mas nenhuma porta se abria. A dificuldade financeira fazia parte da realidade diária. Ainda assim, uma coisa acontecia em sentido contrário ao que as circunstâncias poderiam sugerir: quanto mais difícil ficava o lado de fora, mais eles aprendiam a permanecer unidos por dentro.

Esse contraste é uma das marcas mais importantes desse primeiro ciclo.

Não era a ausência de problemas que sustentava o casamento. Era a decisão de atravessá-los juntos.

“Melhor serem dois do que um, porque têm melhor recompensa do seu trabalho.”
— Eclesiastes 4:9

A experiência daqueles primeiros meses não foi uma teoria sobre casamento. Foi vida real. Dois adultos construindo uma casa, uma família e uma caminhada, enquanto aprendiam a lidar com aquilo que não podiam controlar.

Quando a dificuldade entrou pela porta

A dificuldade financeira não chegou como uma visita passageira. Ela fez parte daquele primeiro ano.

Rosinete recorda que, mesmo querendo trabalhar, as portas não se abriam. E, diante disso, a ajuda da família se tornou parte importante da sobrevivência daquele período. Sua mãe, Rosilda, recebia o casal e, em algumas ocasiões, ajudava com refeições e alimentos não perecíveis. A mãe de Ivanildo, Joana Maria de Melo Regis, também somava à caminhada. O pai de Rosinete, segundo seu relato, ajudava algumas vezes de maneira discreta, inclusive em necessidades simples como gás e alimentos.

Eram ajudas concretas para necessidades concretas.

Não há vergonha nessa parte da história. Pelo contrário: existe memória, gratidão e reconhecimento.

Houve momentos em que a simplicidade chegou ao limite. Rosinete lembra de terem feito mingau de Maizena sem leite, somente com água. É uma lembrança pequena diante da dimensão de uma vida inteira, mas justamente por isso ela carrega uma força histórica singular.

Aquele casal não estava vivendo uma vida idealizada.

Estava vivendo uma vida real.

E, dentro daquela realidade, aprendia uma verdade que mais tarde se tornaria parte do legado que desejavam transmitir a outros casais: a vida cristã não é um caminho sem espinhos.

Há rosas.

Mas também há espinhos.

A madrugada que fortaleceu a aliança

O primeiro ano também foi marcado por madrugadas de oração.

Quando as portas não se abriam durante o dia, eles não permitiam que a noite fosse dominada pelo desânimo. A madrugada se tornou espaço de busca, conversa, fé e permanência.

E havia algo muito importante acontecendo dentro da casa: quando um enfraquecia, o outro procurava fortalecê-lo.

Rosinete conta que, quando ficava triste, Ivanildo vinha com uma palavra de fé. Quando percebia Ivanildo mais pensativo, era ela quem se aproximava para encorajá-lo, lembrando histórias bíblicas como as de Jacó, Rute e Noemi.

Assim, eles foram aprendendo que casamento não significa que os dois terão força ao mesmo tempo.

Às vezes, um estará cansado.

Então o outro sustenta.

Às vezes, um estará triste.

Então o outro encoraja.

Às vezes, os dois estarão diante da mesma dificuldade.

Então os dois precisam buscar juntos.

“E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens.”
— Colossenses 3:23

O primeiro ciclo do casamento ensinava, na prática, que a casa não seria construída somente pelo esforço de duas pessoas. Ela precisaria ser construída também pela fé que ambos professavam.

Duas famílias, uma mesma história

Aquele período também aproximou duas famílias.

Rosinete reconhece a importância de sua mãe, Rosilda, e da mãe de Ivanildo, Joana Maria de Melo Regis. Cada uma, dentro de suas possibilidades, participou daquele primeiro período.

E havia também os ensinamentos que vinham de maneira simples.

Rosinete lembra de observar sua sogra e aprender até coisas aparentemente pequenas, como o que comprar no mercado, como lidar com determinados alimentos e como administrar o cotidiano. Ao mesmo tempo, trazia para dentro do casamento lembranças da própria mãe e de ensinamentos familiares.

A experiência ensinava que uma família nova não nasce sem raízes.

Ela recebe histórias.

Recebe costumes.

Recebe conselhos.

Recebe exemplos.

Mas, ao mesmo tempo, precisa construir sua própria identidade.

Foi assim que Ivanildo e Rosinete começaram a formar a casa deles: não como uma repetição automática das famílias de origem, mas como uma nova família construída sobre aquilo que aprenderam e sobre aquilo que precisaram descobrir juntos.

O amor precisou aprender

O primeiro grande ciclo também revelou que amor não é apenas sentimento.

Para Rosinete, aquele período deixou uma compreensão muito clara: um casamento precisa de amor, respeito, compreensão e ausência de culpa lançada de um contra o outro.

Essa observação nasceu da experiência.

Eles precisavam permanecer juntos para fortalecer um ao outro.

Quando um estava fraco, o outro precisava lembrar aquilo que Deus já havia ensinado.

Quando as circunstâncias diziam que nada estava acontecendo, eles precisavam continuar olhando para aquilo que acreditavam ter recebido de Deus.

E assim o amor foi deixando de ser apenas o sentimento que os havia conduzido ao casamento para se tornar uma decisão diária.

Amar era permanecer.

Amar era compreender.

Amar era não transformar a dificuldade em acusação.

Amar era continuar procurando a direção de Deus.

Nesse processo, o casamento começou a deixar de ser somente uma aliança celebrada em um dia e passou a se tornar uma aliança praticada todos os dias.

Fé e amor no mesmo fundamento

Ao olhar para aquele primeiro ciclo, Rosinete chegou a uma síntese que merece permanecer registrada nesta história:

não basta ter amor; é preciso ter fé.

Mas também:

não basta ter fé; é preciso ter amor.

Para eles, uma coisa não anulava a outra. O casamento precisava das duas.

Essa compreensão também se relaciona com uma convicção que atravessava a história do casal: procurar a vontade de Deus, reconhecendo que ela é perfeita.

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
— Romanos 12:2

A palavra bíblica não aparece aqui como decoração. Ela expressa a direção que o casal afirma ter buscado durante aquele período: não simplesmente perguntar como sair da dificuldade, mas procurar compreender como viver dentro da vontade de Deus enquanto a dificuldade ainda existia.

O primeiro grande ciclo se encerra, mas a história continua

O primeiro ano não terminou com todas as perguntas respondidas.

As portas que não haviam se aberto não transformaram aquela fase em fracasso.

A escassez não destruiu a aliança.

As madrugadas não foram esquecidas.

As ajudas recebidas da família não foram apagadas.

E as pequenas experiências daquele período — inclusive aquelas que poderiam parecer insignificantes para quem olha de fora — começaram a formar aquilo que mais tarde se tornaria um alicerce.

Esse foi o primeiro grande ciclo do casamento.

Não porque tudo tivesse sido resolvido.

Mas porque, ao atravessarem aquele primeiro período, Ivanildo e Rosinete já não eram simplesmente duas pessoas que haviam se casado.

Eram duas pessoas que haviam começado a descobrir, na prática, o que significava vencer juntos.

A história ainda teria novos capítulos.

A família ainda cresceria.

Novas responsabilidades chegariam.

Novas provas apareceriam.

Mas aquilo que começou naquele primeiro ciclo permaneceria como fundamento: amor e fé, lado a lado, sob um mesmo propósito em Cristo Jesus.

E, acima de todas as pessoas que ajudaram, de todas as circunstâncias vividas e de todos os recursos que apareceram ou faltaram, permaneceria aquilo que o casal reconhece como centro de sua história:

Deus.

O primeiro grande ciclo do casamento não foi a história de um casal que não enfrentou dificuldades.

Foi a história de um casal que, diante delas, aprendeu a permanecer unido.

E isso também é parte da aliança.