CAPÍTULO 52 — QUANDO DOIS SERVOS COMEÇARAM A FORMAR UM AO OUTRO

O crescimento produzido pela caminhada conjunta

Existem encontros que mudam uma vida.

E existem encontros em que duas vidas começam, pouco a pouco, a mudar uma à outra.

A história de Ivanildo Melo Regis e Rosinete Lima Regis pertence a essa segunda dimensão.

O casamento não encerrou o processo de formação que cada um havia iniciado individualmente. Pelo contrário. A partir da vida em comum, aquilo que antes era aprendido separadamente passou a ser colocado diante das circunstâncias reais: casa, responsabilidades, dificuldades, família, serviço, decisões, fé e convivência.

Foi nesse território cotidiano que os dois começaram a descobrir que caminhar juntos também significava ser confrontado pelo outro, aprender com o outro e crescer ao lado do outro.

“Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho.”
Eclesiastes 4:9

QUANDO A CAMINHADA DEIXOU DE SER INDIVIDUAL

Antes de serem marido e mulher, Ivanildo e Rosinete já possuíam suas próprias histórias.

Cada um carregava experiências diferentes.

Cada um havia passado por processos próprios.

Cada um havia recebido ensinamentos, enfrentado dificuldades e desenvolvido maneiras particulares de enxergar a vida e o serviço a Deus.

O casamento, porém, colocou essas duas histórias dentro do mesmo caminho.

A partir dali, decisões deixaram de atingir somente uma pessoa.

Uma dificuldade de Ivanildo também alcançava Rosinete.

Uma tristeza de Rosinete também alcançava Ivanildo.

Uma vitória de um se tornava alegria para os dois.

E uma responsabilidade assumida por um exigia, muitas vezes, a compreensão e o apoio do outro.

Foi assim que a convivência começou a exercer uma função que nenhuma teoria conseguiria exercer com a mesma profundidade:

formar.

Não apenas formar marido.

Não apenas formar esposa.

Mas formar duas pessoas que precisavam aprender a viver uma aliança.

O DESERTO TAMBÉM FOI UMA ESCOLA

O primeiro período do casamento foi marcado por dificuldades financeiras.

Rosinete descreve aquele tempo como um deserto.

Portas não se abriam como esperavam. Houve momentos em que precisaram contar com a ajuda das mães e até com auxílio do pai de Rosinete, que algumas vezes ajudava de maneira anônima.

Houve dias simples e difíceis.

Houve refeições que precisaram ser adaptadas.

Houve momentos em que o necessário parecia maior do que os recursos disponíveis.

Mas, dentro daquela realidade, uma coisa foi sendo construída:

as raízes do casamento.

Rosinete reconhece que aquele período ensinou que uma vida a dois não poderia depender somente de sentimentos.

Era necessário amor.

Mas também era necessário respeito.

Era necessária compreensão.

Era necessária unidade.

Era necessário permanecer juntos quando as circunstâncias não fossem favoráveis.

E, segundo seu próprio testemunho, quando ela estava triste, Ivanildo trazia uma palavra de fé. Quando ele se mostrava pensativo, ela procurava fortalecê-lo.

Assim, o fortalecimento não seguia uma única direção.

Ora um sustentava o outro; ora o outro sustentava um.

Foi nessa reciprocidade que os dois começaram a compreender uma verdade que o tempo tornaria ainda mais profunda: casamento não significa ausência de fraquezas; significa também ter alguém ao lado durante o processo de enfrentá-las.

QUANDO UM COMEÇOU A PERCEBER O OUTRO

Há uma diferença entre conhecer alguém e aprender a compreendê-lo.

Conhecer pode acontecer rapidamente.

Compreender exige tempo.

Ivanildo precisou aprender a enxergar Rosinete não apenas como esposa, mas como uma mulher que também possuía sua própria história, seus sentimentos, suas experiências e sua maneira de perceber as situações.

Rosinete, da mesma maneira, precisou aprender a lidar com Ivanildo compreendendo que, embora fosse um homem dedicado ao serviço de Deus, continuava sendo um homem com passado, sentimentos, limitações e processos.

Essa percepção mudou a forma como ela passou a lidar com ele.

Em vez de enxergar apenas aquilo que precisava ser corrigido, começou a buscar compreensão.

Em vez de exigir somente atenção, aprendeu também a oferecer amor.

Em vez de responder apenas à situação presente, procurava compreender o homem que estava diante dela.

Esse processo não aconteceu de uma única vez.

Foi construído.

Dia após dia.

Situação após situação.

E justamente por isso tornou-se parte da formação dos dois.

O QUE IVANILDO APRENDEU COM ROSINETE

Rosinete ensinou por meio de palavras, mas também por meio de atitudes.

Ela o ajudou a compreender dimensões da vida familiar que precisavam ser experimentadas dentro da própria casa.

Um dos pontos mais significativos esteve relacionado à paternidade.

Segundo seu testemunho, Ivanildo carregava uma dificuldade para conversar, orientar, sentar e ouvir, relacionada à própria história familiar.

Não se tratava simplesmente de saber que era pai.

Tratava-se de aprender a exercer a presença de pai.

Conversar com um filho.

Orientar.

Escutar.

Separar tempo.

Estar presente.

E, nesse processo, Rosinete participou de uma formação que não aconteceu por meio de uma aula formal, mas através da convivência.

Anos depois, quando Ismael já estava praticamente adolescente, pai e filho saíram juntos para almoçar.

Para quem observa de fora, poderia parecer apenas um almoço.

Para Ismael, entretanto, aquele momento ficou marcado como um momento muito bom ao lado do pai.

Existem mudanças que não fazem barulho.

Às vezes, elas aparecem simplesmente quando um pai finalmente se senta ao lado do filho.

Quando conversa.

Quando ouve.

Quando permanece.

E talvez essa seja uma das formas mais silenciosas pelas quais uma pessoa pode ajudar outra a amadurecer.

O QUE ROSINETE TAMBÉM APRENDEU

Mas seria injusto transformar essa história em uma narrativa na qual apenas Rosinete ensinava e Ivanildo recebia.

O próprio testemunho dela aponta para outra direção.

Ela também aprendeu.

Aprendeu a ser esposa.

Aprendeu a ser mãe dentro de uma nova configuração familiar.

Aprendeu a servir.

Aprendeu a compreender melhor o marido.

Aprendeu a lidar com responsabilidades.

Aprendeu a atravessar períodos difíceis.

Aprendeu a permanecer quando seria mais fácil olhar apenas para a dificuldade.

A própria experiência do deserto lhe ensinou coisas que não poderiam ser aprendidas somente através de palavras.

Ela aprendeu que uma família precisa de mais do que amor declarado.

Precisa de fé praticada.

Precisa de diálogo.

Precisa de cuidado.

Precisa de paciência.

Precisa de unidade.

Precisa de pessoas dispostas a fortalecer umas às outras.

“Melhor é o longânimo do que o herói de guerra, e o que domina o seu espírito, do que o que toma uma cidade.”
Provérbios 16:32

DOIS SERVOS, DUAS EXPERIÊNCIAS, UMA ESCOLA

A caminhada conjunta não apagou as diferenças entre Ivanildo e Rosinete.

Ela ensinou os dois a conviver com elas.

Ivanildo possuía seus processos.

Rosinete possuía os dela.

Ele tinha coisas que precisava aprender.

Ela também.

Ele precisava amadurecer em determinadas áreas.

Ela igualmente precisava amadurecer em outras.

E foi justamente nessa realidade que o casamento deixou de ser apenas uma aliança afetiva para tornar-se também um ambiente de formação humana e espiritual.

Cada conversa podia ensinar.

Cada dificuldade podia revelar alguma coisa.

Cada decisão podia produzir maturidade.

Cada erro podia trazer uma correção.

Cada vitória podia produzir gratidão.

E cada etapa podia aproximá-los mais de Deus.

O crescimento, portanto, não aconteceu porque um dos dois era perfeito.

Aconteceu porque ambos estavam dispostos a continuar aprendendo.

QUANDO O SERVIÇO TAMBÉM COMEÇOU A FORMAR O CASAL

Havia ainda uma dimensão que não poderia ser separada da história dos dois: o serviço a Deus.

Eles não estavam apenas construindo uma casa.

Estavam também construindo uma maneira de servir.

E servir colocou diante deles responsabilidades que exigiam disciplina, perseverança, fé e disposição.

Rosinete trazia seus próprios aprendizados de serviço.

Ivanildo trazia os seus.

E aquilo que cada um havia vivido passou a encontrar espaço dentro da caminhada conjunta.

Isso produziu uma formação diferente.

Já não era somente Ivanildo aprendendo a servir.

Nem somente Rosinete aprendendo a servir.

Era o casal descobrindo como viver, servir e permanecer juntos.

A vida ministerial também revelava características pessoais.

O serviço podia mostrar impaciências.

Podia revelar limitações.

Podia exigir renúncia.

Podia exigir organização.

Podia exigir humildade.

E, quando essas coisas apareciam, novamente os dois tinham a oportunidade de aprender.

O AMOR QUE TAMBÉM CORRIGIA

Amar não significa concordar com tudo.

Em uma caminhada verdadeira, o amor também pode ensinar.

Pode mostrar um caminho diferente.

Pode chamar a atenção.

Pode fazer alguém perceber aquilo que sozinho não conseguiria enxergar.

Foi assim que a convivência produziu amadurecimento.

Rosinete podia olhar para Ivanildo e perceber algo que ele próprio ainda não havia percebido.

Ivanildo também podia olhar para Rosinete e ajudá-la a enxergar aquilo que precisava ser trabalhado.

Não porque um estivesse acima do outro.

Mas porque quem caminha ao nosso lado consegue enxergar ângulos que, às vezes, nós mesmos não conseguimos ver.

Essa foi uma das riquezas daquele relacionamento.

Eles não precisavam ser iguais para caminhar juntos.

Precisavam aprender a se fortalecer sem destruir a identidade um do outro.

QUANDO O OUTRO SE TORNA PARTE DO NOSSO CRESCIMENTO

Há pessoas que passam pela nossa história sem deixar raízes.

Outras permanecem tempo suficiente para participar daquilo que nos tornamos.

Rosinete passou a fazer parte do processo de amadurecimento de Ivanildo.

E Ivanildo passou a fazer parte do processo de amadurecimento de Rosinete.

Essa afirmação não diminui a ação de Deus na história.

Pelo contrário.

Dentro da compreensão espiritual dos dois, Deus permanecia no centro.

Era o Senhor quem conduzia.

Era Cristo quem permanecia como referência.

Era o Espírito Santo quem deveria orientar a caminhada.

Mas Deus também pode utilizar a convivência, a família, o casamento, os conselhos, as dificuldades e as pessoas para produzir crescimento.

Assim, a formação de um não anulava a formação do outro.

Ela se encontrava.

A MATURIDADE NÃO CHEGOU DE UMA VEZ

É importante registrar isso porque histórias reais não são construídas em um único dia.

Ivanildo não se tornou maduro em todas as áreas simplesmente porque se casou.

Rosinete também não.

O casamento iniciou novos aprendizados.

A família trouxe novas responsabilidades.

Os filhos trouxeram novas experiências.

O serviço trouxe novas exigências.

O tempo trouxe novas compreensões.

E cada fase apresentaria uma nova oportunidade para que os dois continuassem sendo formados.

Por isso, este capítulo não fala sobre um momento em que Ivanildo e Rosinete finalmente ficaram prontos.

Fala sobre o momento em que eles começaram a compreender que a caminhada conjunta também seria uma escola permanente.

“Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros.”
Romanos 12:5

A ESCOLA QUE NÃO TINHA DIPLOMA

Não havia certificado.

Não havia formatura.

Não havia uma cerimônia dizendo que o aprendizado havia terminado.

A escola era a própria vida.

A sala de aula era a casa.

Os exercícios eram as dificuldades.

As provas eram os dias difíceis.

Os ensinamentos estavam nas conversas.

Os resultados apareciam nas atitudes.

E o professor maior, na compreensão de fé dos dois, continuava sendo Deus.

Ivanildo ensinou Rosinete em determinadas áreas.

Rosinete ensinou Ivanildo em outras.

E, em muitas delas, os dois simplesmente aprenderam juntos.

Essa talvez seja uma das maiores riquezas de uma história conjugal: descobrir que crescer junto não significa crescer no mesmo ritmo, nem da mesma maneira; significa permanecer disposto a continuar caminhando enquanto o outro também está sendo formado.

DOIS SERVOS COMEÇANDO A FORMAR UM AO OUTRO

Foi assim que a caminhada conjunta começou a produzir seus frutos.

Não pela perfeição.

Não pela ausência de dificuldades.

Não porque um possuísse todas as respostas.

Mas porque dois servos decidiram continuar lado a lado.

O casamento lhes ensinou a olhar um para o outro com mais profundidade.

As dificuldades lhes ensinaram a permanecer.

A família lhes ensinou responsabilidade.

O serviço lhes ensinou renúncia.

A convivência lhes ensinou compreensão.

E a fé lhes ensinou que nenhuma dessas dimensões deveria ocupar o lugar de Deus.

No início, talvez eles ainda não conseguissem enxergar toda a extensão daquilo que estavam construindo.

Mas o tempo começaria a revelar.

Enquanto caminhavam, estavam sendo formados.

Enquanto serviam, estavam amadurecendo.

Enquanto enfrentavam dificuldades, estavam criando raízes.

Enquanto aprendiam um com o outro, estavam construindo uma história que não pertencia mais apenas a duas pessoas isoladas.

Era a história de dois servos que aprenderam que caminhar juntos também é uma forma de crescer diante de Deus.

E, quando o crescimento é verdadeiro, ele não termina em quem aprende.

Ele alcança a família.

Alcança os filhos.

Alcança o serviço.

Alcança outras pessoas.

E deixa marcas que o tempo não consegue apagar.