CAPÁTULO 

96. Quando a Experiência Virou Responsabilidade

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças.”
Eclesiastes 9:10

Chegar a um novo momento da vida espiritual não significa, necessariamente, receber um título. Muitas vezes, significa descobrir que aquilo que antes era vivido somente como experiência pessoal começa a exigir responsabilidade. Foi assim que uma parte importante da trajetória de Ivanildo e Rosinete começou a tomar forma.

Depois do encontro com Deus, Ivanildo passou por um período de intensa busca. Frequentava as reuniões de dia e de noite, muitas vezes duas vezes no mesmo dia, porque havia em seu interior uma grande sede pela presença de Deus e uma necessidade de cura interior. Em seu testemunho, registra também que, após cerca de um mês de busca, compreendeu ter sido selado com o Espírito Santo.

A experiência, entretanto, não terminou naquilo que ele recebeu. Surgiu uma pergunta prática: onde servir? Ivanildo procurou um lugar para se encaixar, um grupo, um trabalho, uma direção. Ele entendia que o novo convertido não deveria permanecer parado, e esse desejo o levou ao responsável pelo grupo de evangelização.

A resposta inicial não foi a que ele esperava. Disseram que ele ainda não estava pronto. O registro dessa etapa é importante porque mostra que o início do serviço não aconteceu sem limites, espera ou correções. Houve uma porta que demorou a se abrir, e foi justamente nesse intervalo que a experiência espiritual começou a ser testada pela perseverança.

Ele continuou.

Depois de enfrentar as dificuldades para participar, finalmente entrou no grupo de evangelização. O serviço deixou de ser apenas um desejo e passou a exigir presença, disciplina, disposição e compromisso. Ivanildo recorda que trabalhou intensamente, falando de Jesus Cristo com grande intensidade e aprendendo com diferentes líderes. Entre essas referências, destaca o obreiro Tomiris como alguém de quem aprendeu muito naquele período.

Quando a fé encontrou a tarefa

Existe um momento em que a fé deixa de ser apenas aquilo que a pessoa sente dentro de si e passa a aparecer na forma como ela cumpre uma tarefa.

O serviço começou a ensinar a Ivanildo que fazer a obra também era aprender a responder pelo que estava em suas mãos.

Essa compreensão aparece também na trajetória de Rosinete. Antes mesmo de assumir responsabilidades na igreja, ela já trazia de casa a experiência de ajudar crianças em atividades de aprendizado. Depois, ao caminhar na antiga instituição, passou a apoiar no cuidado com crianças e, com o tempo, a aconselhar e orientar crianças e adolescentes. Ela descreve esse processo como um período em que começou a amadurecer, assumir decisões e compreender o peso da responsabilidade.

Assim, os dois começaram a aprender, cada um em sua trajetória, uma mesma lição:

servir transforma quem serve.

Não porque toda tarefa seja grandiosa, mas porque a responsabilidade revela o caráter.

Cuidar de uma criança, participar de uma evangelização, ouvir alguém, cumprir uma orientação ou permanecer fiel a um compromisso aparentemente simples são experiências que preparam a pessoa para responsabilidades maiores.

“E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens.”
Colossenses 3:23

Foi também nesse ambiente que Ivanildo começou a compreender que obediência fazia parte do crescimento.

Os ensinamentos recebidos no serviço apontavam para a necessidade de aprender, ouvir, mudar comportamentos e colocar em prática aquilo que era ensinado. O serviço, portanto, não era somente uma oportunidade de fazer algo para Deus; era uma escola em que o próprio trabalhador precisava ser trabalhado.

Entre os ensinamentos que marcaram sua formação, ele recorda orientações sobre fé, propósito, jejum, disciplina e a necessidade de fazer até as tarefas mais simples com eficiência, amor e sem murmuração. Limpar um espaço ou realizar uma atividade aparentemente pequena poderia ser uma oportunidade de demonstrar responsabilidade.

Essa lógica também alcançou Rosinete. Ao recordar sua formação, ela mencionou pessoas que lhe ensinaram a cuidar de crianças e adolescentes, a visitar famílias, a ouvir os problemas dos mais jovens e a compreender que servir não era apenas falar, mas também escutar, orientar e acolher com responsabilidade.

A experiência, então, começou a adquirir uma nova dimensão.

Já não bastava dizer que havia fé. Era necessário demonstrar, na prática, que aquela fé produzia constância.

Já não bastava desejar servir. Era preciso permanecer quando a tarefa era cansativa, quando a resposta demorava ou quando ninguém estava olhando.

A responsabilidade começa antes do reconhecimento

É importante registrar isso porque, historicamente, a responsabilidade veio antes dos reconhecimentos posteriores.

A própria arquitetura da biografia estabelece que não devemos antecipar para este capítulo etapas como a consagração de obreiro, a liderança posterior do grupo de evangelização, a transferência de igreja ou a devolução da patente. Esses acontecimentos pertencem a momentos futuros da linha do tempo.

Neste capítulo, estamos justamente no ponto em que a pessoa começa a aprender a carregar o serviço.

O título ainda não é o centro.

O que existe é o treinamento silencioso:

entrar, aprender, obedecer, trabalhar, ser corrigido, persistir e continuar.

Isso dá ao início do ministério uma beleza particular.

Antes de existir reconhecimento, existia trabalho.

Antes de existir posição, existia aprendizado.

Antes de haver responsabilidade pública, existia uma responsabilidade interior: ser fiel àquilo que havia sido colocado nas mãos de Ivanildo e Rosinete.

Pequenos acontecimentos, grandes significados

Foi nesse começo que Ivanildo guardou também lembranças que, para outras pessoas, poderiam parecer pequenas.

Uma delas aconteceu depois de uma jornada de evangelização. O grupo voltou ao ponto de apoio e alguns se reuniram para lanchar. Ivanildo, sem dinheiro naquele momento, ficou de fora. Em sua lembrança, desejou beber um refrigerante e, no caminho de volta para casa, encontrou perto de um grande mercado um único recipiente que, ao tocar, percebeu estar pressurizado. Ele entendeu que era um refrigerante e recebeu aquele episódio como uma resposta de Deus a um desejo simples.

O valor dessa lembrança não está no tamanho do objeto, mas no significado que ele recebeu dentro da história de Ivanildo.

Para ele, aquele pequeno acontecimento fazia parte da experiência de caminhar “eu e Deus”, uma caminhada muitas vezes solitária, mas que ele compreendia como acompanhada pela presença do Espírito Santo.

Esse relato deve permanecer como testemunho e interpretação espiritual de Ivanildo, respeitando a distinção entre o fato vivido e o significado que ele atribuiu à experiência.

E é justamente aí que experiência e responsabilidade se encontram.

A experiência ensinava Ivanildo a confiar.

A responsabilidade ensinava a agir.

A experiência fortalecia sua fé.

A responsabilidade exigia disciplina.

A experiência dizia que Deus estava com ele.

A responsabilidade perguntava:

o que ele faria com aquilo que havia recebido?

Do desejo de servir ao compromisso de servir

Rosinete também atravessou esse movimento.

Seu primeiro serviço com crianças nasceu de algo aparentemente simples, mas ganhou profundidade à medida que as responsabilidades cresceram. Ela guardou os ensinamentos recebidos de sua mãe e de pessoas que a instruíram na caminhada. O serviço foi se tornando um lugar de amadurecimento, decisão e preparação.

Ivanildo e Rosinete ainda estavam em etapas próprias de formação, e esta biografia fará questão de respeitar essas diferenças.

Eles não começaram exatamente da mesma maneira.

Não aprenderam com as mesmas pessoas.

Não receberam as mesmas tarefas.

Mas ambos estavam descobrindo algo que mais tarde se tornaria fundamental para a história do casal:

o ministério exigiria mais do que boa vontade.

Exigiria caráter, obediência, perseverança e capacidade de cuidar de pessoas.

Esse aprendizado foi construído antes de qualquer grande reconhecimento.

Por isso, quando a história avançar para responsabilidades maiores, o leitor precisará lembrar deste momento.

Foi aqui, nos pequenos serviços e nos primeiros limites, que começaram a aparecer as raízes.

Quando servir deixou de ser apenas uma experiência

A mudança não aconteceu de uma vez.

Foi acontecendo por repetição.

Um dia de serviço se tornou outro.

Uma tarefa trouxe outra.

Um ensinamento foi seguido por uma correção.

Uma dificuldade foi seguida por perseverança.

E, pouco a pouco, aquilo que tinha começado como desejo de fazer algo para Deus se transformou em compromisso com aquilo que Ivanildo e Rosinete entendiam ter recebido diante de Deus.

Essa é a verdadeira passagem deste capítulo:

a experiência virou responsabilidade.

Não porque Ivanildo ou Rosinete já tivessem chegado ao ponto final, mas porque haviam começado a entender que cada oportunidade de servir carregava uma obrigação de fazê-lo com seriedade.

O ministério que viria mais tarde não nasceu pronto.

Foi sendo construído em ambientes simples, em tarefas discretas, em momentos de espera e em aprendizados que talvez ninguém fotografasse.

Naquele tempo, como o próprio Ivanildo recorda, não havia a facilidade dos smartphones para registrar tudo. Havia a memória, a experiência e aquilo que cada etapa deixou dentro deles.

E é justamente por isso que esta biografia precisa registrar esses primeiros anos com cuidado.

Porque uma história ministerial não é feita somente dos momentos que aparecem diante de muitas pessoas.

Ela também é feita daqueles dias em que ninguém estava olhando, mas a pessoa estava aprendendo a ser responsável.

“Quem é fiel no mínimo também é fiel no muito.”
Lucas 16:10

O que começou como sede por Deus passou a exigir serviço.

O serviço passou a exigir responsabilidade.

E a responsabilidade começou, lentamente, a preparar o caminho para algo maior.

A partir daqui, a narrativa poderá avançar para as etapas em que Ivanildo e Rosinete receberão novas responsabilidades, enfrentarão novas provas, aprenderão com seus líderes e verão o serviço alcançar dimensões maiores.

Mas a base permanecerá esta:

antes do ministério público, houve o trabalho silencioso; antes do reconhecimento, houve formação; antes do título, houve responsabilidade.