CAPÍTULO 84 QUANDO O TÍTULO DEIXOU DE SER O CENTRO

“Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua benignidade e da tua verdade.”
Salmos 115:1

Ao longo da nossa caminhada, eu, Ivanildo, e Rosinete, fomos compreendendo uma verdade que se tornou cada vez mais clara para nós: o título tem sua importância, mas nunca poderá ocupar o lugar do chamado.

Nós aprendemos a respeitar as funções, as responsabilidades e as posições que existem dentro da obra de Deus. Um título pode identificar uma função, indicar uma responsabilidade e reconhecer uma etapa de serviço. Entretanto, ele não define o valor de uma pessoa diante de Deus, muito menos pode substituir a razão pela qual alguém decidiu servir.

Para nós, essa distinção se tornou fundamental. O título pode estar diante do nome; o chamado precisa estar dentro da consciência. O título pode ser reconhecido pelas pessoas; o chamado precisa ser vivido diante do Senhor. O título pode mudar conforme as estações da vida; o compromisso de permanecer fiel a Deus precisa continuar.

Foi nessa compreensão que aprendemos a não construir nossa identidade em torno de cargos ou designações. Nosso foco precisava permanecer em nosso Senhor e em Sua vontade. Se recebêssemos uma responsabilidade, deveríamos exercê-la com seriedade. Se uma responsabilidade terminasse, continuaríamos pertencendo ao Senhor. O que não poderia mudar era o centro da nossa vida.

Nós entendemos que existe uma diferença profunda entre desejar um título e desejar cumprir um chamado. Quem busca apenas um título pode acabar preso ao reconhecimento. Quem busca cumprir um chamado precisa estar disposto a obedecer, inclusive quando não houver aplauso, visibilidade ou qualquer forma de destaque.

Essa foi uma convicção importante para nós: não queríamos servir para sermos vistos; queríamos servir porque amávamos o nosso Senhor e desejávamos permanecer dentro da vontade dEle.

O título é importante. Nós não o desprezamos. Pelo contrário, entendemos que toda função carrega responsabilidade e que toda responsabilidade deve ser tratada com respeito. O problema começa quando aquilo que deveria ser apenas um instrumento de serviço passa a ocupar o lugar do próprio propósito.

Foi por isso que procuramos manter uma postura diferente. Não queríamos ficar presos ao pensamento de que determinado nome, posição ou reconhecimento fosse a prova maior da nossa importância. Para nós, a verdadeira questão era outra:

Estamos fazendo aquilo que Deus quer que façamos?

Essa pergunta é muito mais profunda do que perguntar qual é o nosso título.

Porque um título pode dizer o que alguém exerce. O chamado revela aquilo para o qual a pessoa se dispõe diante de Deus.

E foi justamente aí que fomos aprendendo a colocar cada coisa no seu lugar.

No centro, o Senhor.

Ao redor desse centro, a obediência, o serviço, a responsabilidade, a humildade e o amor pelas pessoas.

E, somente depois, o título como uma ferramenta para cumprir uma tarefa.

Essa ordem fez diferença na nossa maneira de caminhar.

Não queríamos transformar posição em identidade. Não queríamos olhar para outras pessoas pela grandeza de seus títulos, nem desejar que nosso valor dependesse de uma designação. Aprendemos que Deus pode usar alguém em uma posição de grande visibilidade, mas também pode usar alguém que serve em silêncio, sem reconhecimento público.

Para nós, o valor do serviço nunca esteve simplesmente no nome da função, mas na fidelidade com que ela é exercida.

E aqui aprendemos uma coisa que parece simples, mas exige maturidade: uma responsabilidade pode ser recebida com honra e, no tempo certo, também pode ser entregue com paz. Isso não diminui quem serviu. Pelo contrário, demonstra que a pessoa compreendeu que a função pertence à missão, e não à sua própria identidade.

O título como instrumento - nunca como centro

Em nossa caminhada, entendemos que não existe problema em receber reconhecimento quando ele acompanha uma responsabilidade legítima. O problema está em permitir que esse reconhecimento se torne o motivo do serviço.

Não queríamos chegar ao ponto de precisar de um título para nos sentirmos úteis. Nossa utilidade não estaria na palavra colocada depois do nome, mas na disposição de cumprir aquilo que o Senhor nos pedisse.

Essa convicção também trouxe liberdade para nossa caminhada como casal. Eu e Rosinete entendemos que nenhum de nós precisava competir por espaço, reconhecimento ou importância. O nosso compromisso era buscar juntos a vontade do Senhor. Se Deus confiasse uma responsabilidade a um de nós, o outro deveria compreender aquilo como parte da caminhada. Se a responsabilidade fosse confiada aos dois, deveríamos carregá-la juntos. E, em qualquer situação, a prioridade continuaria sendo o Senhor.

Essa visão nos ensinou a valorizar mais a missão do que a posição.

Uma função pode terminar. Uma estação pode mudar. Uma responsabilidade pode ser entregue a outra pessoa. O chamado para continuar vivendo em fidelidade ao Senhor, porém, não deveria depender de uma cadeira, de uma placa, de um documento ou de uma palavra colocada diante do nome.

Nós aprendemos que o verdadeiro servo precisa estar preparado não somente para receber, mas também para entregar. Há maturidade quando alguém consegue exercer uma responsabilidade com honra e, quando chega o momento, colocá-la novamente nas mãos de Deus sem transformar aquilo em uma crise de identidade.

Esse entendimento se tornou importante porque existe uma diferença entre servir a Deus e servir ao próprio título.

Quem serve ao título precisa que o título permaneça.

Quem serve ao Senhor continua servindo mesmo quando o título muda.

Essa foi a direção que procuramos para nossa própria vida.

Não queríamos ficar presos ao reconhecimento de uma função. Queríamos conservar o coração disponível para aquilo que Deus determinasse. Nosso desejo era que a nossa história fosse medida não pelo tamanho das posições que ocupamos, mas pela sinceridade com que respondemos ao que o Senhor colocou diante de nós.

“E tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor, e não aos homens.”
Colossenses 3:23

Essa palavra expressa muito do que fomos aprendendo. Se o serviço fosse realizado apenas para homens, o título poderia se tornar o centro. Mas, quando o serviço é realizado diante do Senhor, a posição deixa de ser um fim e volta a ser um meio.

Foi assim que entendemos que o título pode ser uma honra, mas o chamado é uma responsabilidade. O título pode ser percebido pelas pessoas; o chamado precisa ser sustentado diante de Deus.

Quanto maior a posição, maior deveria ser o temor.

Quanto maior a visibilidade, maior deveria ser a humildade.

Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a disposição para servir.

Foi assim que fomos compreendendo que a verdadeira grandeza não está no título que acompanha o nome, mas no caráter que sustenta a pessoa quando ninguém está olhando.

Esse princípio também nos ajudou a compreender nosso lugar como casal. Nós não queríamos construir nossa caminhada em torno de aparência. Queríamos construir uma história marcada por fidelidade, serviço e obediência.

E existe uma emoção especial quando percebemos que, ao longo dos anos, aquilo que poderia parecer apenas uma questão de posição se transformou, para nós, em uma questão de propósito. A pergunta deixou de ser “qual é o título?” e passou a ser:

“Qual é a vontade do Senhor para esta etapa da nossa vida?”

Essa mudança de pergunta produz uma mudança de postura.

Ela nos torna mais humildes para começar, mais firmes para permanecer e mais livres para obedecer quando Deus determina uma mudança.

Por isso, não queremos que a nossa história seja lembrada pela quantidade de títulos que carregamos. Queremos que seja lembrada pela disposição de obedecer ao Senhor.

Não queremos que as gerações futuras olhem primeiro para aquilo que estava escrito diante dos nossos nomes. Queremos que encontrem uma lição mais profunda:

um título pode representar uma função; somente a fidelidade pode dar sentido a essa função.

Também aprendemos a respeitar todos aqueles que servem. Não devemos diminuir ninguém por possuir uma função que pareça pequena aos olhos humanos, nem imaginar que uma função elevada torne alguém superior. Na obra de Deus, uma responsabilidade maior também significa uma responsabilidade maior diante dEle.

Por isso, quando olhamos para essa etapa da nossa história, podemos dizer com clareza:

nós entendemos que o título é importante, mas o chamado é muito mais.

Não fomos chamados para viver presos a uma posição. Fomos chamados para permanecer diante do nosso Senhor, atentos à Sua vontade e disponíveis para servi-Lo.

Como Ivanildo e Rosinete, queremos deixar este princípio registrado para as próximas gerações:

não confundam título com chamado; não transformem posição em identidade; não coloquem reconhecimento acima da obediência.

Se o título vier, que seja recebido com humildade.

Se a responsabilidade crescer, que o serviço cresça junto.

Se uma etapa terminar, que permaneça a fidelidade.

E se Deus abrir uma nova direção, que tenhamos coragem para obedecer.

Porque os títulos passam, as funções mudam e as estações da vida se renovam. Mas a fidelidade ao Senhor continua sendo o verdadeiro patrimônio de uma vida dedicada a Ele.

O nosso centro continua sendo o mesmo:

o nosso Senhor;

a Sua vontade;

o Seu chamado.

E todo o restante deve permanecer no lugar que lhe pertence.

Ao final dessa compreensão, aquilo que poderia ser visto apenas como uma questão de posição se tornou, para nós, uma decisão de coração: servir sem estar presos ao título, obedecer sem depender do reconhecimento e permanecer disponíveis para a vontade do nosso Senhor.

Esse é o princípio que queremos guardar:

o título é importante, o chamado é maior, e o Senhor está acima de ambos.

Toda honra, toda glória e todo reconhecimento final pertencem a Deus.

“Porque os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento.”
Romanos 11:29