CAPÍTULO 88

A “Mãe do Amor”

“Aonde quer que tu fores, irei eu; e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu Deus é o meu Deus.”
Rute 1:16

Há pessoas que entram em uma família por meio do parentesco. Outras, com o passar dos anos, conquistam um lugar que nenhuma formalidade consegue explicar. Na nossa história, Joana Maria de Melo Regis foi se tornando uma dessas presenças.

Por isso, o título deste capítulo — A “Mãe do Amor” — não deve ser entendido como um apelido que estamos atribuindo retroativamente a ela, mas como uma síntese literária daquilo que sua presença representou em nossa memória familiar: amor, cuidado, acolhimento e presença.

Esse vínculo ganhou força especialmente depois do casamento de Ivanildo e Rosinete. O primeiro ano de casamento foi descrito por Rosinete como um período de deserto: havia disposição para trabalhar, mas as portas não se abriam como esperávamos. Em meio a essa dificuldade, a família precisou aprender a caminhar com aquilo que tinha, sem abandonar a fé nem a união do casal.

Foi nesse cenário que a presença de Joana adquiriu um peso especial. Rosinete registrou que o casal ia à casa dela para algumas refeições e que, em outras ocasiões, Joana ajudava com alimentos não perecíveis. O relato é simples, mas o significado é profundo: em uma fase em que os recursos eram escassos, havia uma mãe que se colocava ao lado do casal dentro das possibilidades que possuía.

Não queremos aumentar o que aconteceu. O que Joana fez já era suficiente para deixar uma marca.

Uma refeição compartilhada, um alimento separado, uma porta aberta e uma presença constante podem parecer pequenos acontecimentos para quem observa de fora. Para uma família atravessando uma fase de necessidade, porém, essas coisas podem significar exatamente aquilo de que se precisa para continuar avançando.

Rosinete também descreveu Joana como uma espécie de referência prática naquele período. Ao falar de suas dificuldades, ela se recorda de vê-la como uma Noemi, lembrando a narrativa bíblica de Rute: uma mulher mais experiente, cuja convivência podia ensinar coisas simples da vida, inclusive no mercado — o que comprar, como escolher e como lidar com situações do cotidiano. Essa comparação pertence à interpretação e à memória de Rosinete; ela não transforma Joana em Noemi, mas revela a maneira como Rosinete passou a enxergar sua sogra.

É justamente aí que o título deste capítulo encontra seu sentido.

O amor de Joana não aparece apenas em palavras. Ele aparece em atos cotidianos.

O amor se torna concreto quando alguém percebe a necessidade do outro e, dentro de suas possibilidades, oferece ajuda.

Não foi um gesto isolado que construiu esse vínculo. Foi o acúmulo de pequenas presenças que, com o tempo, formou uma memória maior.

A nossa história também mostra que amor familiar não significa ausência de dificuldades.

O primeiro ano de casamento teve limitações reais. Houve momentos em que até o alimento precisou ser administrado com cuidado. Rosinete recorda, por exemplo, que chegamos a fazer mingau de Maizena apenas com água.

É uma lembrança pequena, mas revela o cenário daquele período com uma precisão que nenhum exagero literário conseguiria superar.

E, justamente porque a dificuldade era real, o cuidado recebido também se tornou mais significativo.

Joana não precisava resolver toda a situação para fazer diferença.

Bastava somar à caminhada.

Foi assim que sua presença entrou na construção das raízes daquela nova família.

Para nós, essa é uma das faces mais bonitas da história de Joana: ela não aparece como alguém que precisava ocupar o centro. Ela aparece como alguém que sabia estar presente.

E muitas vezes o verdadeiro amor é assim.

Não faz barulho.

Não exige reconhecimento.

Simplesmente chega quando é necessário.

Nesse sentido, a figura de Joana também conversa com o tema que estamos construindo a partir de Rute e Noemi. A Bíblia nos apresenta relações marcadas por fidelidade e cuidado. A nossa história, porém, é outra e deve permanecer outra.

O paralelo serve apenas para iluminar um princípio: há vínculos familiares que se tornam profundos porque são construídos por escolhas diárias de cuidado.

Rosinete foi aprendendo a olhar para Joana não apenas como sogra, mas como uma mulher que fazia parte de sua formação dentro da nova família. E Joana, por sua vez, passou a participar da vida daquele casal de maneira concreta, especialmente quando as dificuldades exigiram apoio.

O vínculo se fortaleceu sem necessidade de declarações grandiosas.

“E o Senhor recompense o teu feito, e seja cumprido o teu galardão do Senhor Deus de Israel, sob cujas asas te vieste abrigar.”
Rute 2:12

A palavra de Rute nos ajuda a compreender outro aspecto dessa etapa: cuidado também é uma forma de abrigo.

Na experiência de uma família jovem, atravessar um período difícil ao lado de pessoas que oferecem apoio produz segurança. Foi isso que a presença de Joana representou para nós em momentos importantes daquela caminhada.

Ela não podia controlar as portas que se fechavam, nem resolver todos os problemas financeiros do casal. Mas podia oferecer aquilo que estava ao seu alcance.

E o que estava ao seu alcance foi entregue com amor e carinho, conforme o próprio testemunho de Rosinete.

Hoje, olhando para trás, compreendemos que muitas vezes Deus usa pessoas comuns em situações comuns para sustentar capítulos importantes de uma história.

Não são necessariamente grandes acontecimentos que definem uma família.

São as pequenas atitudes repetidas durante o tempo.

Por isso, a lembrança de Joana permanece ligada à ideia de amor que se torna ação.

Não apenas sentir, mas cuidar.

Não apenas falar, mas estar.

Não apenas observar a dificuldade, mas participar daquilo que é possível.

E esse aprendizado também alcançou Ivanildo.

Ver sua mãe se tornando parte do apoio daquela nova família mostrava que o casamento não era uma caminhada isolada. Havia uma rede de pessoas, experiências e valores contribuindo para que aquela união criasse raízes.

Ao lado de Rosinete, Joana ajudou a construir uma fase em que o casal aprendeu uma lição que continuaria sendo repetida ao longo dos anos: o amor precisa caminhar acompanhado da fé, da paciência, do respeito e do cuidado.

O próprio testemunho de Rosinete sobre aquele período reconhece que as dificuldades, embora dolorosas, também produziram aprendizado e amadurecimento.

O que chamamos aqui de “Mãe do Amor” está, portanto, menos relacionado a um título e mais relacionado a uma experiência:

Joana foi uma presença de amor dentro da nossa família.

Uma presença que apareceu de modo concreto quando precisávamos e que deixou uma marca que o tempo não apagou.

Não devemos romantizar as dificuldades daquele período.

O deserto foi real.

A escassez foi real.

A necessidade de aprender a viver juntos também foi real.

E, justamente por isso, a ajuda recebida teve valor real.

A memória fica mais bonita quando permanece verdadeira.

Assim, ao registrar este capítulo, nós não estamos dizendo que Joana foi perfeita, nem inventando uma imagem idealizada.

Estamos reconhecendo aquilo que a história permite afirmar:

ela participou da vida daquela nova família com presença, cuidado e amor.

Essa presença ainda atravessaria outras fases da nossa história. O vínculo entre Joana e Rosinete continuaria sendo aprofundado por novas experiências, até chegar aos dias em que a vida de Joana exigiria ainda mais cuidado e proximidade.

Mas essa parte virá no tempo certo da narrativa.

Por enquanto, queremos guardar uma imagem simples e verdadeira:

uma mãe que abriu espaço em sua vida para a nova família do filho e que, em tempos de dificuldade, ajudou como podia.

Foi assim que o amor ganhou forma.

Foi assim que a convivência se tornou vínculo.

E foi assim que uma relação inicialmente definida pelo parentesco começou a adquirir uma dimensão muito mais profunda na memória de todos nós.

“Bendito seja o Senhor, que não deixou hoje de te dar um remidor.”
Rute 4:14

No fim, aquilo que permanece não é a grandeza das palavras, mas a verdade dos gestos.

Joana deixou uma marca de cuidado na nossa família.

Rosinete aprendeu a recebê-lo, reconhecê-lo e também devolvê-lo em outras formas de presença.

E nós, hoje, olhando para trás, entendemos que algumas pessoas se tornam parte da nossa memória não porque procuraram ocupar um lugar, mas porque amaram de maneira concreta.

É por isso que este capítulo recebe o nome de A “Mãe do Amor”.

Não como uma invenção, mas como uma expressão literária para aquilo que os fatos revelam:

Joana participou da construção afetiva da nossa nova família e deixou no coração de Rosinete uma lembrança que não pode ser medida apenas pelo parentesco.

O tempo passaria.

A família cresceria.

Novas lutas viriam.

Novos capítulos seriam escritos.

Mas aquela marca permaneceria:

quando faltava muito, o pouco oferecido com amor se tornava grande.

E assim queremos guardar Joana em nossa história: não apenas pelo que ela era para Ivanildo, mas pelo que sua presença significou para Rosinete e para a família que os dois estavam construindo.