CAPÍTULO 98 — Quando a Família Começou a Enxergar Além de Casa

“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos e sois da família de Deus.”
Efésios 2:19

Durante muito tempo, a palavra família significou, para Ivanildo e Rosinete, aquilo que acontece dentro de casa: cuidar, proteger, sustentar, corrigir, ensinar, aprender e permanecer unidos nas dificuldades. Mas chegou um momento em que eles começaram a perceber algo maior. A família continuava sendo o lugar de origem e de proteção, mas não seria o limite daquilo que poderiam fazer.

O que haviam vivido dentro de casa começou a alcançar outras pessoas. As experiências do casamento, as dificuldades atravessadas, os ensinamentos recebidos e a própria formação no serviço começaram a produzir uma disposição diferente: a de colocar a família também a serviço de pessoas que estavam fora dela.

Essa mudança não significou abandonar a casa. Pelo contrário. A casa passou a ser uma espécie de base de formação. O que era aprendido dentro dela podia ser levado para fora. A fé ensinada aos filhos podia aparecer no modo de servir. O respeito aprendido no casamento podia aparecer no modo de tratar outras pessoas. A experiência de atravessar dificuldades podia se transformar em sensibilidade para compreender quem também estava passando por lutas.

Foi assim que a história começou a ganhar uma dimensão nova. Ivanildo e Rosinete não eram apenas um casal construindo uma família; eram também duas pessoas que estavam aprendendo a transformar a própria experiência em cuidado para outros.

Esse movimento pode ser percebido de maneira especialmente clara depois da chegada de Ismael. Rosinete relata que, com seu nascimento, eles deixaram de ser dois para se tornarem três. A chegada do filho mudou a dinâmica da família, mas não interrompeu o serviço que já fazia parte da caminhada do casal. Ao contrário: Ismael cresceu acompanhando os pais em diferentes atividades.

Segundo o relato familiar, ele esteve presente com eles na antiga instituição, acompanhando momentos de evangelização, visitas, bazares e outras atividades. Em algumas ocasiões, chegava a acompanhá-los de bicicleta. A família, portanto, não vivia o ministério como algo completamente separado da vida doméstica. O filho conhecia, desde cedo, uma parte da rotina dos pais que envolvia servir e estar com outras pessoas.

Essa presença também demonstra uma transformação importante: a experiência dos pais começou a ser testemunhada pela própria geração seguinte. Ismael não recebeu somente palavras dentro de casa; segundo o relato, ele observou os pais participando da obra e, com o passar do tempo, também começou a colaborar.

“Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.”
1 Pedro 4:10

A família, então, começou a enxergar além de suas próprias necessidades. Isso não aconteceu de uma vez, nem significou que os problemas de casa desapareceram. Eles continuaram sendo marido, mulher e pais, com responsabilidades reais. Mas passaram a compreender que aquilo que Deus lhes permitia aprender dentro da família poderia também ser útil no cuidado de outras famílias.

Rosinete já carregava esse entendimento em sua própria formação. O trabalho com crianças havia lhe ensinado que servir era muito mais do que executar uma função. Era ouvir, compreender, orientar e acompanhar. Ela havia aprendido a lidar com crianças e adolescentes, a fazer visitas, conversar com mães e compreender que cada pessoa trazia uma história diferente.

Com o tempo, esse aprendizado passou a encontrar espaço dentro da própria família. Rosinete também recorda que ensinava ao filho princípios de obediência, respeito, caráter, amor, dedicação e excelência, ressaltando que ele deveria fazer as coisas não por obrigação ou para agradar pessoas, mas colocando Jesus como prioridade.

Esse detalhe é significativo. O ensino não terminava quando a reunião acabava. O ministério continuava dentro de casa. A forma de ensinar Ismael revelava que, para Ivanildo e Rosinete, a formação espiritual de um filho não era separada da formação de caráter. Eles queriam que ele aprendesse a escolher corretamente, tomar decisões com equilíbrio, deixar um legado e oferecer o melhor de si.

Ao mesmo tempo, o exemplo dos pais também começou a ser devolvido por meio das habilidades do próprio Ismael. O relato registra que, já mais velho, ele passou a ajudar com vídeos, banners, ideias e outras tarefas, além de auxiliar o pai na obra. Ele também passou a participar de um grupo de jovens, onde construiu amizades e responsabilidades dentro da fé.

Não é preciso transformar esse processo em algo maior do que o próprio relato apresenta. O que a história mostra é suficiente: a família começou a cooperar. O que antes parecia ser apenas o trabalho dos pais começou, gradualmente, a envolver também o filho.

Esse é um dos sentidos mais profundos do título deste capítulo. Enxergar além de casa não significa deixar de olhar para casa. Significa compreender que a casa também pode ser um lugar de preparação para servir fora dela.

Quando uma família aprende a permanecer unida em tempos difíceis, ela desenvolve ferramentas que podem ajudar outras pessoas. Quando aprende a conversar, pode levar essa experiência para aconselhar. Quando aprende a perdoar, pode compreender quem está enfrentando conflitos. Quando aprende a servir sem buscar aplausos, torna-se capaz de trabalhar mesmo quando ninguém reconhece.

Foi isso que as experiências acumuladas começaram a produzir em Ivanildo e Rosinete. Eles não estavam apenas formando uma família; estavam aprendendo a administrar uma família que também fazia parte de uma caminhada de serviço. Essa combinação exigiria cada vez mais equilíbrio, responsabilidade e maturidade.

O processo, porém, não foi construído sobre uma família perfeita. A própria história já mostrou que houve desertos, limitações, dificuldades financeiras, momentos emocionais difíceis e necessidade de mudanças de ambos os lados. Rosinete reconheceu que o casamento lhe ensinou a compreender melhor o marido, oferecer mais amor e atenção e aprender a lidar com as diferenças.

Por isso, quando essa família começou a olhar para além de casa, não estava olhando de um lugar de perfeição. Estava olhando de um lugar de experiência. Talvez justamente por isso o cuidado pudesse alcançar outras pessoas com mais humanidade. Eles também sabiam o que significava precisar de apoio, aprender, esperar e continuar.

A vida de serviço do casal começou, então, a envolver uma pergunta que seria cada vez mais importante:

como cuidar de pessoas sem abandonar as responsabilidades da própria família?

A resposta não surgiu de uma vez. Foi sendo construída na prática, enquanto Ivanildo e Rosinete aprendiam a caminhar como casal, como pais e como servos.

Esse equilíbrio seria decisivo para os capítulos seguintes. Porque, à medida que as responsabilidades ministeriais crescessem, também cresceria a necessidade de preservar aquilo que estava dentro de casa. O ministério não poderia ser contado como se existisse separado da família. Nesta história, família e serviço caminharam lado a lado.

E isso explica por que Ismael aparece nesta etapa da biografia. Não apenas como filho, mas como alguém que, segundo o relato da família, passou a participar de parte daquilo que seus pais viveram. A presença dele mostra que a história não estava simplesmente passando de uma geração para outra; ela estava sendo observada, ensinada e, pouco a pouco, continuada.

Há também algo simbólico nessa fase. A família havia começado pequena, com dois adultos tentando construir uma vida juntos. Depois veio o filho. E, com ele, veio a necessidade de pensar não apenas no presente, mas no legado.

O que seria ensinado?

O que seria repetido?

Que tipo de homem ele se tornaria?

Que influência os pais deixariam?

Rosinete registra que ela e Ivanildo conversavam com Ismael sobre seu futuro, sobre o serviço a Deus e sobre a ideia de que ele deveria viver segundo aquilo que compreendiam como propósito de Deus. Esse relato pertence à fé do casal e deve ser compreendido como tal; historicamente, o que se pode afirmar é que eles procuraram formar o filho dentro dos valores espirituais que orientavam a própria vida deles.

Dessa forma, a família começou a deixar de ser apenas um espaço de proteção e tornou-se também um espaço de transmissão de valores e preparação para servir. O que era vivido em casa encontrava expressão fora de casa. E o que era aprendido fora de casa retornava para dentro dela, fortalecendo a maneira de viver.

“Eu e a minha casa serviremos ao Senhor.”
Josué 24:15

Este versículo não é usado aqui para afirmar que toda a trajetória da família já estivesse pronta naquele momento. Ele ilumina, porém, uma decisão que atravessa a história de Ivanildo e Rosinete: a compreensão de que a fé deveria alcançar também a vida familiar. Casa e serviço não eram dois mundos separados.

Foi assim que a família começou a enxergar além de casa. Não para abandonar o lar, mas para compreender que o lar também poderia gerar serviço, caráter, cuidado e legado.

A experiência de um casal passou a alcançar um filho. A experiência de uma família passou a alcançar outras famílias. O que havia começado com reuniões, evangelização e pequenos serviços começou a ganhar uma dimensão mais ampla: uma família aprendendo a servir junta.

E essa mudança abre a próxima etapa da biografia. Porque, quando uma família começa a enxergar além de suas próprias paredes, o ministério passa a exigir novas formas de organização, novas responsabilidades e novas escolhas. A casa continua sendo fundamento, mas o horizonte se amplia.

A experiência havia virado responsabilidade. Agora, a responsabilidade começava a alcançar uma família inteira - e, por meio dela, pessoas que estavam muito além da porta de casa.